Papo com Lu Bento, a mãe preta

mae-pretaUm dia desses eu estava navegando na internet e me deparei com o Tumblr 1oo livros infantis com meninas negras e achei incrível. Fui pesquisar mais um pouco e encontrei o Blog A mãe preta e acabei conhecendo a Luciana Bento e conversamos por e-mail. Mas vou deixar que ela mesma se apresente…

Sou Luciana, mulher, negra, mãe, esposa, cidadã, professora, pedestre, motorista, filha, cientista social, meddiadora de leitura, estudante, livreira, neta, ouvinte, madrinha, consumidora, vizinha, telespectadora, leitora, amiga, consultora, militante,  blogueira… Todas elas juntas num só ser. – Blog A mãe preta.

Luciana é de São Paulo e possui o blog A mãe preta desde de 2014. Mãe de duas meninas, buscava referências sobre a criação de meninas negras em um mundo machista.

Como muitas mulheres, quando eu descobri que estava grávida eu mergulhei nos blogs de maternidade. Devorava as leituras sobre o tema e sentia falta da ponto de vista de mulheres negras. Não conhecia nenhum blog sobre maternidade negra. Em 2014, quando eu já tinha minhas duas filhas, Aísha e Naíma, comecei a pensar ainda mais sobre as questões relacionadas a criação de crianças negras numa sociedade em que o racismo ainda é muito presente. Não encontrava nenhum bloq que falasse sobre isso e decidi criar o meu. Não sabia ainda que cara eu queria para o blog, só tinha uma necessidade  muito grande de mostrar por mundo que a maternidade negra envolvia muitas questões que não eram faladas na blogsfera materna. Aos poucos fui encontrando outras mães negras e o diálogo ficou ainda mais rico, mas questões foram surgindo e o proposta do blog foi ganhando corpo.

Quem entra no blog A mãe preta percebe que tem muito da Luciana em cada post e ela acaba compartilhando suas experiências com outras mulheres.

No começo queria algo menos pessoal, mas percebi que as minhas dúvidas e inseguranças eram parte do processo. O blog é uma busca minha, pessoal, por respostas sobre como vivenciar minha maternidade de uma forma que seja resistente ao racismo. Acabou que compartilhar as minhas vivências se mostrou um caminho mais confortável pra mim, e com isso eu acabei alcançando outras mulheres que passam por situações e questionamentos muito parecidos.

Bom, a Dani e eu ainda não somos mães, mas sabemos que muita coisa relacionada à gravidez e à mulher ainda é tabu, sem falar do machismo acerca do papel da mãe. A Luciana traz estes temas à tona com muita naturalidade através dos posts.

A gente precisa acabar com essa ideia de que filhos são “propriedades” das mães. A gente faz a parte de colocar esses novos seres no mundo, mas a responsabilidade da criação é do pai e da mãe, em iguais proporções. E da educação das crianças é de todo a sociedade, em diferentes proporções. Então, precisamos agir em pelo menos dois sentidos: o primeiro é chamar o homem a responsabilidade, mostrar que ele também faz parte desse processo e que ele precisa de dedicar verdadeiramente a educação daquela criança; o segundo passo é desapegar, entender que não é porque geramos e parimos que aquele ser nos pertence e deve estar sempre vinculado à mulher.

Ainda existe muito preconceito com relação às mães que trabalham fora ou que optam por seus filhos morarem com o pai em caso de separação, por exemplo. Quanto mais a gente aceitar que existem diversas possibilidades de configurações familiares e que nem sempre a mãe é a figura mais presente na vida dos filhos, melhor será nossa compreensão de que a maternidade não precisa ser a única e principal função de uma mulher que tem filhos.

Em relação ao papel da representatividade no emponderamento feminino…

A representatividade é um excelente caminho para empoderar mulheres. Se ver nos lugares nos faz acreditar que qualquer mulher pode chegar até lá e pode conquistar outros espaços. A sociedade está o tempo todo mostrando o que é “coisa de mulher” de forma estereotipada e depreciativa.  Quando encontramos uma mulher fazendo coisas além do rótulo de “coisas de mulher” nos sentimos mais estimuladas a desafiar esses rótulos. E não que as ditas “coisas de mulher” também não possam ser fonte de empoderamento. Claro que são! Quando uma mulher aprende sobre automaquiagem, por exemplo, ela se sente melhor, elava a sua autoestima e se sente mais segura para fazer várias outras coisas que possivelmente eram difíceis pra ela.

O que eu quero dizer é que quanto mais a gente vê outras mulheres felizes e confortáveis em variados espaços, mas estimuladas ficamos em almejar esse estado de realização e nos movimentar para alcança-lo.

Eu tenho duas filhas e eu sempre procuro mostrar pra elas mulheres negras em destaque, para que elas se sintam representadas, tenham referencias e saibam onde elas podem chegar.

Foi buscando representatividade que surgiu o projeto 100 livros infantis com meninas negras.

Sim, eu criei o 100 meninas negras porque eu queria muito que minhas filhas tivessem acesso a livros infantis com protagonismo de meninas negras. Eu não tive essa oportunidade, eu lia muito na minha infância, mas não me lembro de nenhum livro com protagonismo negro que eu tenha lido na infância. Isso me colocava em um lugar de não-identificação com os personagens das histórias que eu lia. Não que o personagem precise ser exatamente igual ao leitor pra gerar a identificação, nós nos identificamos e nos envolvemos com diferentes aspectos de cada personagem literário.  Mas quando você não encontra nenhuma personagem parecido com você, isso gera um impacto negativo.

Então, como eu tenho uma livraria especializada em literatura com protagonismo negro, as pessoas me pediam dicas de livros infantis e eu decidi fazer esse projeto, dando destaque para as meninas negras e par representações positivas dessas meninas.

Quanto à curadoria e a dificuldade de encontrar livros protagonizados por meninas negras.

Não tive muita dificuldade porque eu já estava trabalhado com literatura, então eu já tinha uma boa noção. Além disso, já tinha um olhar voltado para o protagonismo de meninas negras por causa das minhas filhas. A maior dificuldade foi ler todos os livros e avaliar se eles realmente apresentavam essas meninas de forma positiva. Porque muitos livros trazem meninas negras como protagonistas mas apresentam um enredo que reforça estereótipos racistas e machistas. Eu não queria que na lista tivessem livros que colocassem as meninas negras em uma posição negativa, então eu mesma fiz a curadoria, lendo vários livros e selecionando os que apresentavam uma visão positiva das meninas negras.

O poder da literatura na mudança do cenário social.

Eu acredito muito no potencial transformador da literatura. Ela nos dá acesso a mundos imaginários incríveis, e nos faz acreditar que possam ser reais. Uma menina que lê essas histórias, acredita que ela também pode realizar esses feitos, pode ser tão incrível quanto as personagens e esse é a força que precisamos para transformar o mundo (pelo menos no nosso mundo!).

Pensando além da literatura infantil, a literatura em geral nos ajuda a compreender a realidade, a desenvolver um senso crítico e a ter criatividade para transformar a realidade. Eu mesma, por exemplo, me encorajei a criar meu blog de maternidade a partir da Ifemelu, blogueira personagem principal do romance Americanah, da Chimamanda Ngozi Adichie. Ifemelu me fez perceber que se eu queria um blog de maternidade com  a visão de uma mulher negra eu precisaria escrevê-lo. Essa foi uma transformação na minha vida, e isso pode acontecer em diferentes medidas com as pessoas.

Dos 100 livros citados no projeto, quais você indicaria neste minuto?

Alguns! Kkkk Eu sempre indico “O Mundo no Black Power de Tayo”, de Kiusam de Oliveira, porque ele é maravilhoso. Ele fala sobre autoestima e sobre como o cabelo crespo é bonito. O cabelo é um tema muito importante na vida das meninas negras, mexe diretamente com a nossa autoestima, por isso um livro sobre cabelo tão importante. Aí eu já lembro de outro, “Os Mil cabelos de Ritinha”, de Paloma Monteiro. Esse livro, além da relação do cabelo, ele trás uma relação familiar que raramente vemos entre personagens negras tanto nos livros como nas novelas, nos desenhos animados, enfim, na mídia em geral. Em “Os Mil Cabelos de Ritinha” a cada dia a personagem tem seus cabelos penteados por um membro da família, pelo pai, pela mãe, pelo avô…é uma menina preta com uma família amorosa recebendo cuidado. Isso é muito simbólico! Um último livro que eu gostaria de destacar, senão eu fico aqui citando todos os livros da lista, é o “Dandara e a princesa perdida”, de Maíra Suertagaray. Esse livro fala de princesas, mais fala também de ancestralidade africana, fala da histórias dos negros nos Brasil numa perspectiva de resistência, o que é importante que as nossas crianças saibam.

Nós sentimos muita falta de mulheres no mercado editorial, como autoras, curadoras, editoras. Por isso estamos com o projeto #Vamoslermulheres, quais autoras você indica pra gente?

Realmente as mulheres são deixadas de lado no mercado editorial. Mais uma vez os homens ocupam o espaço como se a escrita feminina não fosse relevante. Por muita luta e resistência feminina hoje existe um movimento forte de leitura de escritoras femininas. Eu indico minha diva, minha autora favorita, a Chimamanda Ngozi Adichie, que ficou conhecida pelas palestras Sejamos todos feministas e O perigo da história única ( que circulam por aí pela internet. Indico toda a obra dela, Hibisco roxo, Meio Sol Amarelo e Americanah, em português, e o livro de contos The Thing Around Your Neck. Além dela, acho que vale muito a pena conhecer algumas autoras negras brasileiras, como Conceição Evaristo ( os livros de contos Olhos D’água e Histórias de Leves Enganos e Parecenças podem ser uma boa introdução à obra dela), a Elizandra Souza ( o livro de poemas Àguas da Cabaça), a Elaine Marcelina (com uma obra que mistura contos, poesias e histórias de vida de mulheres negras, o livro “Mulheres Incríveis”). Entre as africanas, além da nigeriana Chimamanda, indico a  moçambicana Paulina Chiziane. E ainda as norte-americanas Alice Walker ( A cor púrpura e No templo dos meus familiares) e Toni Morrison ( O olho mais azul  e o mais recente, Voltar pra Casa).

Já deu pra ver que eu não sou muito boa em dar dicas concisas né?

Projetos fora da internet…

Fora da internet realizo oficinas em escolas sobre a aplicação desse acervo do 100 meninas negras em atividades pedagógicas. É um trabalho que eu gosto muito de fazer com os educadores, porque o material literário precisa ser mais diverso nesses espaços e às vezes os educadores nem sabem por onde começar.

Além disso, faço parte de um grupo de maternidade negra, o Iyá Maternância, que é uma rede de apoio de mães negras, onde a gente discute as especificidades na criação das crianças negras e a nossa experiência de maternidade. São encontros presenciais de acolhimento e fortalecimento mútuo. Através do blog A mãe preta já fiz também atividades de contação de histórias e de sociabilidade de famílias negras, que foram bem bacanas para essa relação de empoderamento mútuo.

E já realizei a mediação de alguns clubes de leituras de literatura negra, tenho uma livraria itinerante especializada em literatura negra e foram atividades para dialogar sobre o acervo com que trabalho.

A mensagem que a Luciana Bento quer passar para meninas e mulheres através dos seus projetos dentro e fora da internet.

A mensagem que eu quero passar é que elas podem tudo. Nós, mulheres, podemos ocupar todos os espaços que quisermos. Se a gente sentir falta de algo que ainda não existe, podemos criar! Temos todos os instrumentos necessários para buscar a nossa realização na vida, e as dificuldades não devem ser limitadoras. Gosto muito de saber que meninas e mulheres que tiveram acesso ao 100 meninas negras e ao meu blog A mãe preta e me escrevem dizendo que leram algo lá que as estimou ou encorajou a fazer alguma coisa, porque é isso que eu quero compartilhar com elas.

Vocês perceberam que as respostas não foram editadas, impossível cortar qualquer conteúdo. O papo foi incrível e acredito que os projetos da Luciana ajudam muitas mulheres e meninas. Espero encontrar muitas outras iniciativas como essa ainda. E vocês o que acharam do papo?

Quer conhecer mais A mãe preta?

Blog: http://amaepreta.com.br/

Tumblr: https://100meninasnegras.tumblr.com/

Livraria: http://www.inalivros.com/

Facebook: https://www.facebook.com/amaepreta

Twitter: @roxinhalb

Instagram: @amaepreta

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Comments
  • Daniela Tiemi
    Daniela Tiemi
    Responder

    Uhuulll, que projeto mara!!! Parabéns para a Luciana!

    Adorei as dicas das autoras femininas, Chimamanda, Toni Morrison e Alice Walker tão na minha lista de leitura! =D E, adorei as dicas dos livros infantis com protagonistas negras. Muito bom!

    Bjos.

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